Thursday, April 30, 2009

Somewhere after the Rainbow

Anunciada em 2007 como a terça parte de uma trilogia, ‘The Blackest Night’ está aí, sem pirotecnia alguma, prestes a destampar caixões, interromper o sono de alguns justos (ou injustos) e arrancá-los de seus santos (ou nefastos) sepulcros. Mais que outro quadrinho inspirado no canibalismo cadavérico de George Romero, a promissora minissérie em oito capítulos é incontestavelmente o projeto mais audacioso e extenso em pormenores capitaneado por Geoff Johns, quiçá da própria DC Comics.

Contudo, o prolífico autor não é o único que tem feito os fãs roer as unhas de ansiedade, se não sabe, sua retaguarda está sendo muito bem protegida em Green Lantern Corps por Peter J. Tomasi que, verdade seja dita, vem conduzindo a mitologia esmeralda a patamares nunca antes alcançados. Aliás, é tudo culpa dele e poucos têm conhecimento disso, do que estou falando? Ora, no início de 2003, como editor, foi o próprio que tomou a iniciativa de trazer Hal Jordan de volta ao jogo, inclusive o responsável por convidar e impulsionar Johns a fazê-lo.

O homem ainda é dono de três façanhas impressionantes: (1) trouxe Reino do Amanhã à atenção da DC; (2) cuidou pessoalmente do relançamento da SJA para novas gerações; e (3) protagonizou o único arco decente (e último) do malfadado título mensal do Asa Noturna.

Assumindo as rédeas da Tropa logo após Sinestro Corps War, precisamente num ponto cronológico onde Johns recontava no carro-chefe os primórdios* de Hal Jordan, Tomasi, por sete meses ficou a cargo, sozinho, de desenvolver a miríade de subtramas estabelecidas no pós-guerra. O resultado é que perdemos um editor competente e vivaz, ganhamos um roteirista de mente aberta e muito consciente do potencial de destruição de suas histórias.

* Adequando sua origem secreta a elementos recentes como o do massacre do Setor 666, as profecias dos Cinco Inversores e o destino sombrio de William Hand.

E que histórias, e que personagens.

Até parece que só agora, Kyle Rayner, com quinze anos de estrada e Guy Gardner com quarenta, é que amadureceram como personagens. Enquanto o primeiro se descobriu como o coadjuvante nato que, vá lá, sempre deveria ter sido, o segundo transcendeu de um tolo irritante para um oficial sagaz e sarcástico. Destacá-los como dupla* só colaborou para enriquecê-los individualmente, visto que Rayner manteve intacta sua personalidade, mas no lugar de choroso e piegas, passou a ser calejado e racional, e Gardner, o referencial que devemos tomar é o de um Sawyer (de Lost)menos Sawyer” e “mais Lafleur(se é que me entende).

* Só faltou uma coisa nesta seqüência: que a risada do Salaak soasse propositalmente como a do Guy, a clássica “BWA-HA-HA-HA-HÁ”.

Tal qual como Johns, Tomasi está à frente dos enredos com pelo menos dez jogadas prontinhas que mais tarde viriam a lhe favorecer como xeque-mate.

Uma delas é a participação de Mongul como usurpador do lugar de Sinestro na sua Tropa, deixando para trás uma vasta pilha de corpos e um lugar à altura reservado nos anais do Livro de Parallax. A começar pelo incidente no Planeta das Clemências Negras (em Green Lantern Corps #20 e #23-26) que, entre outras coisas, revela a origem das plantinhas mal criadas de uma forma que arrancaria um sorriso maroto até mesmo de seu horticultor (Alan Moore), e depois removendo a base dos portadores de anéis amarelos de Qward para a xenófoba Daxam.

* Seus oficiais têm informações desencontradas do líder, uns tantos pensam que fora morto durante a ação em Coast City, outros que estaria sendo mantido como prisioneiro nas ciencelas de Oa e alguns crêem que a execução pública em Korugar alcançou êxito. Certo mesmo é que a última suposição se concretizaria não fosse à intromissão de um punhado de asseclas fiéis ao seu senhor e ainda por cima a primeira investida dos Lanternas Vermelhos.

Duas coisas devem ser ditas ainda sobre a Tropa Amarela, em primeiro lugar, após o desastroso clímax da guerra, houve dispersões e retrocessos generalizados na qualidade do efetivo, sem hierarquia e treinamento consistente, contando apenas com Arkillo para a tarefa, o que se vê hoje é um grupo que contrasta com o original, desordenado e formado por uma esmagadora maioria de buchas de canhão. E em segundo, mesmo com pessoas “bem intencionadas” como Mongul, a ausência de Sinestro e tenentes como Prime e Henshaw ou Parallax e o Anti-Monitor (umGuardiãoàs avessas), é sentida principalmente na carência de notáveis como Bedovian, Despotellis, Fatality, Karu-Sil e Lyssa Drak.

Em contrapartida, temos Kryb* e os gêmeos quíntuplosou simplesmente oQuintetoEna, Pente, Tessera, Theo e Tria fazendo bastante estrago nos alicerces da Tropa do Lanternas Verdes, seja raptando os filhos pequenos, seja exterminando seus entes queridos.

* Impressão minha ou ela partilha do mesmo perfil das criaturas aterrorizantes que Guillermo del Toro costuma conceber?

A tática em tela teve sucesso tanto na vitória como na conseqüente derrota, isto porque, num primeiro momento, os resultados alcançados serviram para incutir medo nos recrutas e desequilibrar os oficiais mais graduados, e num segundo momento, quando a ameaça já se encontrava contida, deu bojo para que os Guardiões instituíssem outra adição (a terceira) ao Livro de Oa.

Basta dizer que a mesma repercutiu como resignações em massa por parte dos amantes entre as fileiras daquela Tropa. O que viria a calhar como um ponto a favor das Safiras Estrelas visto que os ex-oficiais esmeraldas a princípios seriam fortes candidatos a arrebanhar o espectro emocional do amor (violeta).

A ironia é que não foi preciso um conflito sangrento para que os Lanternas Verdes perdessem mais membros, mas sim o mero reflexo impopular desta reforma que a curto prazo tende a enfraquecer significativamente o contingente verde e colaborar com aqueles presságios de Atrocitus (em Green Lantern #37).

Outrora seres atrelados fortemente aos próprios desígnios, os anões azuis estão cada vez mais pró-ativos e com uma crueza fatalista que incomoda e os faz crer em uníssono que a paz só seria possível com a supressão completa das emoções. E para piorar as coisas, entre eles está uma traidora*, a GuardiãScar” dando uma de “Palpatine”, fazendo jogo duplo e atuando nos bastidores para que alguém dispare o primeiro anel e a guerra das luzes seja deflagrada.

A mais recente sabotagem desta última foi a de facilitar a fuga de Vice (Lanterna Vermelho do Setor 13), um verdadeiro cão raivoso que varre o chão com o carcereiro Voz e os prisioneiros da Tropa Sinestro que ali estavam.

* Ao se ferir na contenda contra o Anti-Monitor (em Green Lantern #25), de alguma forma sua alma se perdeu entre as trevas e o lânguido das energias liberadas.

Emotion Sickness

As particularidades de cada anel e os respectivos gatilhos morais que incitam seus construtos têm fugido ao senso comum de maniqueísmo e previsibilidade, estabelecendo conceitos ímpares de critério e fundamentação. Na boa? Nas mãos de outros, daria tudo no mesmo.

VERMELHO = ÓDIO >>> O objetivo de Atrocitus, o último dos Cinco Inversores, é simples, vingar-se dos Guardiões pelo massacre do Setor 666 e, por tabela, de Sinestro e Jordan. Não há qualquer política no trato com estes Lanternas, incapazes de pensar claramente ou com razão*, atacando a esmo o quer que esteja no seu ângulo de visão. O ímpeto de cólera habilita o uso do anel e faz com que o sangue do portador queime como napalm e seja expelido pela boca.

* Apenas Atrocitus, seu líder, tem domínio pleno das faculdades mentais.

LARANJA = AVAREZA >>> Muita coisa sobre este espectro emocional ainda está por ser revelado, mas o que sabemos é que ele tem uma influência parecida com a que o “Um Anel” exercia sobre Gollum, e no caso aqui, Larfleeze.

O que se sabe com certeza é que, há milênios atrás, os Guardiões da luz verde fizeram um pacto com os da laranja que enquanto estes últimos a mantivessem enterrada, seu sistema solar (Vega) estaria fora da jurisdição da Tropa dos Lanternas Verdes.

Recentemente, a Guardiã Scar mexeu alguns pauzinhos para que o trato fosse quebrado, forçando o “Agente Laranja” a se revelar e, pelo andar da carruagem, tudo indica que muito excremento cítrico está prestes ser jogado no ventilador.

AMARELO = MEDO >>> De algum jeito, após resolver algumas pendências pessoais, Sinestro deverá reaver a “glória” de sua Tropa. Isto é inconteste, e é inconteste também que este é hoje o antagonista mais tridimensional deste Universo, talvez o mais próximo de um “Magneto” na DC Comics (ver 01-02-03).

E se as coincidências entre tudo que está acontecendo e o que se sucede no manifesto ‘Crepúsculo dos Super-Heróis’ de Alan Moore pararem por aí, fique avisado, mais um vilão regenerado está pintando pela área.

VERDE = FORÇA DE VONTADE >>> Se não tombar durante a ‘Noite Mais Densa’, deverá sofrer profundas e abrangentes modificações estruturais. Como deixei claro há instantes, meu palpite é que os Guardiões estão com os seus na reta e devem baixar um bocado suas bolinhas como autoridades supremas. E Hal Jordan deve fazer novamente às vezes de “Joaquim Barbosa”.

AZUL = ESPERANÇA >>> A natureza simbiótica que tem com os Lanternas Verdes, fazem deles aliados naturais daquela Tropa já que a mínima proximidade com um azul faz recarregas automáticas dos anéis dos agentes da força de vontade e drena as energias dos do medo. É também o único que pode combater a infecção da chama vermelha.

Pacifistas de carteirinha, a ausência de um Lanterna Verde nas proximidades só garante a estes Lanternas vôo limitado e suporte vital no vácuo do espaço.

PS. Sem opção, para se livrar do anel vermelho, Jordan foi obrigado a portar um verde na mão direita e outro azul na esquerda, o que, só pra constar, tem lhe causado vários problemas.

ANIL = COMPAIXÃO >>> Nada de sabe ainda sobre a chamada “Tribo Índigo”.

VIOLETA = AMOR >>> As* Lanternas aqui funcionam como mantenedoras daquele sentimento indecifrável que induz a obter ou a conservar a pessoa ou a coisa pela qual se sente afeição ou atração. As intenções delas até que seriam muito boas não fosse o fato de estarem lobotomizando hostis sob a premissa de resgatá-las a partir da fagulha de amor que ainda resta em seus corações.

E isso, escreva aí, vai dar em merda. Afinal de contas, só um cego não veria que figurinhas como Fatality, Karu-Sil e Kryb são causas tão perdidas quanto minha dieta do carboidrato.

* Haja vista que até aqui, só vi beldades portando estes anéis.

PRETO = MORTE >>> Muito se especula e pouco se tem de concreto sobre esta Tropa. Sabe-se que a Lanterna Negra emergiu no local onde o Anti-Monitor tombou (o Planeta Ryut) e que no interior de William Hand (o Mão Negra) reside o portal para a escuridão absoluta.

Supõe-se que o poder da mesma deve influenciar e levantar os mortos. Já garantidos nas hordas putrefatas temos pelo menos Arthur Curry, Jonn Jonzz e o Superman da Terra-2, mas suspeito que estejam também no páreo os cadáveres de Ralph & Sue Dibny, Ronnie Raymond, Conner Kent, Bart Allen e os Lanternas Verdes Jack T. Chance, Katma Tui, Ke’Haan, Kreon e Laira.

BRANCO = PAZ ? >>> Não é necessário a união de todas as longitudes do espectro visível para obter o branco, uma vez que se misturássemos apenas as cores vermelha, verde e azul obteríamos o mesmo resultado. É por isso que estas são denominadas cores primárias das cores-luz, porque a soma das três produz o branco. Ademais, todas as cores do espectro podem ser obtidas a partir delas.

Daí minha teoria: será que a coisa vai ficar tão feia a ponto de haver uma interação (ou seria fusão?) destas três luzes ou, quem sabe, de todas para fazer frente ao preto?

Vejam lá, os dois extremos da classificação das cores são: o branco, ausência total de cor, ou seja, luz pura; e o preto, ausência total de luz, o que faz com que não se reflita nenhuma cor. Essas duas "cores", portanto não são exatamente cores, mas características da luz, que convencionamos chamar de cor.

Outra suposição parte deste questionamento da óptica geométrica: porque, cargas d’águas, enxergamos, por exemplo, a cor verde? Simples, um objeto que se apresenta verde, quando iluminado com luz branca, reflete a luz verde e absorve praticamente todas as demais cores do espectro.

Bem, conjecturas à parte, a dica que dou para os não iniciados é a de conferir no próximo mês (maio) a edição #09 de Lanterna Verde (da Panini) que trará consigo o início do arco ‘Origem Secreta’, um ótimo ponto de partida* e prenúncio de tudo que virá.

* Ou se preferir, um puta norte para a vindoura adaptação em live-action.

Escrito por LUWIG

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Sunday, April 19, 2009

Livin' On The Edge

Meus freqüentes sumiços não me deixam mentir, tenho sérios distúrbios de regularidade e vez ou outra até que tento fecundar alguns tópicos fixos nessa birosca, mas sempre acabo caindo no lugar comum e sigo com as postagens de praxe.

Não faço idéia (e ainda por cima a uso com acento) se o que estou esboçando a seguir irá se validar, o que sei é que estou propenso a fazer uma varredura aos sábados de tudo que consumi durante uma quinzena. Portanto, sinta-se a vontade para conferir nosso menu.

Batman: The Brave and the Bold

Aí está uma animação quiróptera que foi cercada de vibrações negativas desde seus primórdios e terminou pegando todos os pessimistas de calças curtas (inclusive este que vos fala). Sim, Batman: The Brave and the Bold não tem nada que nos remonte ao exemplar noventista, mas é tão bom quanto, isto é, dentro da premissa adotada de malabarismos conceituais, digamos assim, em tons mais coloridos.

Calma lá, o tom da série é dez vezes mais leve que as antecessoras, mas ao fim de vinte minutos de exibição não te dá vergonha de tê-lo assistido, tão pouco faz do protagonista aquele paspalhão dos anos sessenta. Pelo contrário, o Batman aqui faz justiça ao dos quadrinhos, mais precisamente a aquela concepção invencível e estrategista nato das versões de Grant Morrison.

Lógico que a coisa descamba completamente para a veia heróica e, por que não, aventureira, do personagem com atuações à luz do dia e o velho emblema de auréola dourada para reforçar a mensagem. Deus, e quando pensamos que vai sair algo estúpido e eloqüente da boca dele, temos a voz reconfortante de Diedrich Bader* para nos ajudar a levá-lo sério.

* Parecidíssima com a de Kevin Conroy.

Conferi nove dos quinze episódios exibidos até então, dos quais destaco:



O terceiro e último flashback de ‘Invasion of the Secret Santas!(S01E04) em que Batman relembra o dia em que perdeu seus pais naquele beco escuro. Um primor de narrativa, violento e sugestivo na medida certa.



A passagem em que Kamandi* ajuda Batman a regressar ao passado com a vacina para resolver de uma vez por todas a condição humana no futuro. Ação vertiginosa e deveras interpretativa, inclusive deixando nas entrelinhas pistas de que Darkseid esteve por ali (Final Crisis?).

* Ao lado de Blackest Night, Wednesday Comics me parece ser o que vem de melhor por aí em 2009. E o que Kamandi tem com isso? Nada, meu amigo, simplesmente nada.



Por fim, uma ótima alusão aos recentes acontecimentos no encontro com Boston Brand no além. Este trecho e o anterior foram retirados do sugestivo ‘Dawn of the Dead Man(S01E07).

The Big Bang Theory

Não é de hoje que este sitcom costuma funcionar como um delineador natural de minha cara cada vez mais carrancuda, mas dessa vez, com ‘The Hofstadter Isotope(S02E20), sério, tive câimbras no rosto.

Como sempre, tudo soa como “piada interna” para nós que vivemos intensamente a cultura pop, sobremaneira as vicissitudes da nona arte, o que me chamou atenção nesse episódio em específico foi a forma como se tirou sarro do impermeável e nada convidativo Universo DC.

Detalhe, fãs fazem isso o tempo inteiro e, aparentemente, os criadores também, o que, diga-se de passagem, é espantoso, visto que o programa é uma produção da Warner e a DC Comics uma divisão da mesma. Daí, das duas, uma: (1) ou está rolando um lance espirituoso de autocrítica na empresa; ou (2) o deboche passou por baixo do radar dos executivos.

Cá entre nós? Estou mais inclinado à segunda hipótese.

House

Se a temporada corrente continuar derrotista como está, é muito provável que Gregory House ampute sua perna direita até o desfecho deste quinto ano. O que não deixaria de ser uma conjectura plausível, basta prestar atenção em ‘Painless(S05E12) que terás um vislumbre do que está guardado para o bom doutor.

Caso não o faça, cedo ou tarde seu gênio cada vez mais difícil e afeito a joguetes doentios, implodirá como reação em cadeia. E os primeiros sinais estão aí, flertando com a loucura e envenenando voluntariamente (ou não) todos que o cercam.

Começando por James Wilson que fatalmente nunca será o mesmo depois daquele fatídico dia; Lisa Cuddy tem buscado a felicidade pelos caminhos mais espinhosos possíveis, como mãe solteira de uma criança adotada ou na figura de um amor sinuoso e com grandes chances de não dar em nada; quanto à equipe de diagnóstico, o negócio anda feio, por um lado temos Eric Foreman & Remy 13 Hadley vivendo uma relação disfuncional com altos e baixos* que a qualquer hora podem sepultar seu romance; do outro temos Chris Taub, um monstrinho que House vinha criando e está às vias de perder o controle; e Lawrence Kutner, o único que parecia lidar bem com os caprichos do chefe e a pressão do trabalho até nos depararmos com a inesperada notícia de seu suicídio - um puta soco na boca do estômago!

* Que seria o difícil desafio de lidar com a doença da qual ela é portadora (Huntington).

Se continuarem nessa curva ascendente, os picos de adrenalina e o nível de surpresas tendem a se exceder mais ainda no clímax da temporada que, só para constar, está próximo (11 de maio).

Escrito por LUWIG
 
Thursday, April 09, 2009

No Rest, No Peace

Para os que conhecem Bruce Wayne pessoalmente, a idéia de ele ser a identidade secreta por trás do Batman não apresenta um obstáculo intelectual. Para qualquer outra pessoa, porém, essa idéia seria quase inconcebível. Isso, claro, é bem intencional. Batman precisa de Bruce Wayne. O dinheiro, a posição social, ambos são úteis. Talvez ele também precise de algo para forçá-lo a se envolver em contatos sociais costumeiros. Talvez Bruce Wayne seja uma fina linha de vida social, um guardião à beira de um abismo. O que imediatamente levanta a questão, Bruce Wayne é o Batman ou Batman ocasionalmente se mascara como Bruce Wayne?

Quem, afinal, é Bruce Wayne? Do que ele gosta? No que ele acredita? Se não é uma máscara para o Batman, não poderia ser considerado um tipo de escravo? Ele tinha oito anos de idade, oito anos para escolher um destino antes que este fosse estabelecido para ele. Para algumas pessoas, isso parece suficiente. Elas já sabem o que querem. Já estão formadas. Mas foi o suficiente para Bruce Wayne? Foi suficiente para fazer do Batman uma opção, mais que uma necessidade?

Para fazer o que faz, para ser quem é, Batman fez muitos sacrifícios. Com todo seu domínio sobre seu corpo e mente, ele é um homem que mal conhece o próprio coração. Durante anos, provavelmente não valia a pena conhecer. Durante anos deve ter estado cheio apenas de ódio e tristeza. Se isso mudou, porém, se agora há outros sentimentos se movendo por esse órgão vital, esses movimentos pertencem a Batman ou a Bruce Wayne?

É preciso um verdadeiro esforço para ele manter a persona de um diletante inócuo. É uma interpretação, a coisa toda – desde o vocabulário até a postura. Ainda assim, é inconcebível que ser o Batman possa ser a verdadeira natureza humana de alguém, não é? Batman também é uma interpretação: uma resposta calculada para – até mesmo uma construção feita para lidar com – o crime.

Então onde está o homem? Quem é ele quando não está ativamente manipulando a percepção do seu observador? O que significa isso para ele, se nem ele mesmo sabe? Existe uma vulnerabilidade aí? O perigo de se ver preso entre dois artifícios? Claro que ele está preparado para navegar por esses perigos potenciais, mesmo se seus segredos fossem revelados. Ele deve ter um plano de contigência.

Será suficiente, considerando as pessoas que conhecem seu segredo, que Batman esteja preparado para empregar camuflagem e falsas pistas em sua defesa? Será suficiente simplesmente esperar que eles não queiram agir, nem partilhar a informação? Ou existe alguma vulnerabilidade maior espreitando por trás da falha de Batman em esconder sua identidade mais exaustivamente? Será que essa falha corresponde a um desejo subconsciente de que, ao revelar seu segredo de uma vez por todas, alguém finalmente faça tudo fazer sentido para ele? Não haveria certo alívio em ouvir alguém revelar o segredo? Ao explicar o que sabe, será possível que um de seus inimigos consiga dizer ao Batman algo que ele próprio não entende?

Claro que ele não pode se dar a esse luxo e vai continuar a defender seus segredos com todos os seus recursos. No fim, não é por causa do homem; é pela missão. Isso também é parte do problema. A necessidade de manter a missão. Encontrar uma forma significativa de interagir com a sociedade e a socialização é um dos passos do autodesenvolvimento. Aliás, é um passo tardio. Deve ocorrer depois da individualização e do desenvolvimento interpessoal. E se, em vez disso tudo, Bruce Wayne só tem uma veste? O que aconteceria se, sob o traje, algo em Bruce Wayne estivesse começando a mudar? Algo confortável. Algo nutriente. O que aconteceria se, depois de todo esse tempo, Batman estivesse ficando contente? Para o Batman, contentamento seria uma fraqueza tremenda.

De qualquer forma, não há dúvida de que a inclusão de Robin mudou tudo para Batman. O que foi concebido como um exercício vitalício em tristeza e vingança ativas tornou-se mais que isso. Pode-se planejar uma vida inteira como resposta a uma reação a uma tragédia. Mas não se pode ensinar outra pessoa a viver dessa forma. O próprio ato de ensinar muda a natureza do que está sendo ensinado. Os alunos vêm com suas próprias motivações para aprender, portanto não se pode ensiná-los a adquirir os seus ferimentos, só se pode ensinar o que se fez quando se começou a sarar.

Por ele ser quem era – ou talvez pelo que Batman era para ele –, a missão, na visão de Dick Grayson, parecia diferente. No seu cerne, a luta de Batman se origina da angústia e – vamos admitir – numa quase infantil determinação de poupar qualquer outro da sua tristeza. Mas os que ele treinou, em seus interiores, lutam por gratidão, devoção e esperança. Ele quer que saibam. Batman quer que saibam o quanto isso significa para ele.

Repeat, Please!

Digressões curiosas, não? Vai confessa, até te lembra um escocês careca, gótico e falastrão, concorda? Errado, a efusiva em tela foi construída no começo da década pela única mulher a capitanear um título regular do morcego em toda sua trajetória: Devin K. Grayson (ou Jennifer Eisenmann) que, diga-se de passagem, fazia da extinta ‘Batman: Gotham Knights’ uma das leituras mais prazerosas daquele período, destacando-se até mesmo entre as ótimas histórias de Greg Rucka e Ed Brubaker à frente respectivamente de ‘Detective Comics’ e ‘Batman’.

Fato é que no meu âmago achei deveras repreensível a atitude de Grant Morrison de sair por aí massageando o próprio ego com resgates conceituais da era de ouro e prata e esquecer-se justamente de citar nas diversas incursões que fez em 2008 à mídia especializada destas passagens tão específicas e tão contundentes de Batman: Gotham Knights #08-11 (Batman Premium #17 pela Ed. Abril), que em verdade são o arcabouço de RIP (Rest in Peace) em Batman #676-681.

Claro que os contos de Morrison estão sempre envoltos de pompa, fragmentação lynchiana e muita, muita pretensão revolucionária, mas dessa vez não precisa ir muito longe para reconhecer que o que fez em RIP foi que no lugar de suprimir o euBatman” dando lugar tão só ao euBruce Wayne” em estado bruto (como Devin fez no arco Transferência), ele fez o contrário, tirou o euBruce Wayne” da equação e deixou apenas o euBatman”, no caso a identidade backup, o “Batman de Zur-Em-Arrh”.

O diferencial do maluco de kilt aqui é o intrincado cenário estabelecido a conta-gotas desde que alçou vôo em Batman #655, especialmente a partir da #667-669 (no arco O Clube dos Heróis) trazendo do limbo do esquecimento algo que se o nosso Deus ex-machina em questão tivesse o bom senso (e agradeço por não tê-lo), deixaria repousando em paz nas paragens de Immateria.

Por sinal, foi exatamente nesse trecho que surgiu o único que capturou a essência do que Morrison tinha em mente, alguém habituado a transpor para a celulose o impossível (vide Promethea), alguém como J. H. Williams III.

Isto porque dada a natureza da idéia de remir toda a macro-cronologia do personagem, reavendo diante de perspectivas mais sérias o passado camp/infantil/psicodélico®, só antevejo o referido artista e Alex Maleev (por conta de sua atuação no arco Era de Ouro em Daredevil #66-70) como os aptos a ilustrar de forma elegante as variações estéticas de traço, cor e textura dos flashbacks. Penso que isto também deve ter passado pela cabeça de Morrison quando entregou o projeto ao lápis pouco inspirado de Tony Daniel.

Contudo, algumas ótimas sacadas do roteiro compensam as limitações do ilustrador, como o fio condutor do enredo que nos apresentam as circunstâncias de um passado há muito esquecido onde Bruce se alistou num experimento de medicina espacial* com o intuito de submeter-se a alucinações e psicopatias para reproduzir e entender o funcionamento da mente do Coringa. Sem mencionar as insólitas aparições do Batmirim, o último eco da razão, a âncora que lhe segura à realidade.

* Qualquer semelhança com o ritual de Thögal que se submeteu em 52 não é mera coincidência.

A corrente majoritária defende que a trama é confusa e hermética por demais; a minoritária, no caso a minha, afirma que tudo depende da forma como se lê o quadrinho, se porventura a sua leitura se dá no nível mensal da coisa, pare agora mesmo. O ideal é guardar todas as edições e degustá-las numa fornada só*, da #655-658 e #663-683 e seguindo imediatamente até Final Crisis #06.

* Isto é, se você não fizer algumas pausas estratégicas no Google e na Wikipédia.

Veja, não estou relativizando o clímax desta última, pelo contrário, o acontecido excedeu a prometida “desconstrução psicológica do morcego” e partiu para um nível supostamente seminal, filosófico, quando Bruce foi atingido pelo efeito ômega de Darkseid após alvejá-lo com o mesmo projétil que feriu mortalmente Órion.

Segundo Morrison, a raiz do mito do Batman está nas balas e na arma que o criaram. Então ele estaria finalmente completando esse grande círculo ao empunhar uma arma e disparar balas contra a própria encarnação do mal. Suas últimas palavras “te peguei!”, referiam-se ao fato de que finalmente ele conseguiu ter o deus do mal em sua mira – e o matou (ou quase isso). "Essa era a missão dele o tempo todo, desde a primeira bala. Batman tem senso de humor e é mais esperto que Darkseid (veja 01-02-03).

Discordo, e não só desse raciocínio como também da execução do mesmo, plantado de pára-quedas em meio ao cliffhanger da #681 e complicando um bocado a ordem de leitura, visto que as próximas (e últimas histórias do roteirista), a #682-683, sucedem Final Crisis #02, precisamente o cárcere e a fuga de Batman da fábrica dos asseclas de Darkseid. A resolução conduz o leitor ao cataclismo* da #06 e dita o ritmo furioso da #07, cujo enigmático epílogo revela o verdadeiro destino de Bruce: o início dos tempos.

Não culpo Morrison por toda essa bagunça, pelo contrário, o que faltou foi feedback entre Mike Marts, o editor da revista mensal, e sua contraparte, Eddie Berganza na minissérie. Faltou direcionamento e o jogo de cintura que editores competentes e persuasivos têm como ganha pão, sugerindo sem intervir criativamente na coisa. Aliás, me parece que existe uma carência generalizada desses profissionais na DC Comics.

* Uma coisa que não vi ninguém questionar: o que aconteceu com este cadáver? Não deveria rolar alguma espécie de comoção por parte da comunidade superheróica ou algo do tipo? Será que a coisa foi tão nonsense assim ao ponto de desconsiderarem por completo o defunto? E mesmo Bruce Wayne, uma figura pública, filantropo e playboy de carteirinha, sumir sem qualquer cobertura da mídia, respaldo nos tablóides ou mesmo entre os executivos de suas empresas? Difícil de acreditar e mais ainda de se conformar, afinal estamos no Universo DC e não no Marvel.

Awake

Gotham é uma cidade implacável e deveras sensível a estímulos externos, qualquer ausência de seu guardião maior dá margem para a ação de bandidos oportunistas ou guerra entre gangues para demarcação de território. Nas ruas, a “paz” é um termo abstrato, algo vivente nas idéias, sem base material alguma, apenas uma linha tênue regulada de tempos em tempos por tímidos armistícios.

O Batman está fortemente inserido em algum meio-termo desta linha fazendo parte do folclore local como ferramenta sociológica daquele povo, algo que lhes confere a sensação de segurança que o poder público não consegue prover. Diante desse cenário, seria razoável supor que um sucessor não representaria apenas a manutenção de um legado, mas sim a própria salvaguarda das instituições de um Estado de Direito. O espírito seria mais ou menos esse se Battle for the Cowl não fosse um carro-chefe guiado (ou seria desgovernado?) por aquele mesmo ilustrador medíocre de outrora (o Tony)ou não, vai lá entender...

O cerne da questão é que, bem ou mal, sairá desta minissérie (em três edições) o substituto e a julgar pelos indícios, deve ser novamente* Dick Grayson e como auxiliar (Robin), o irascível Damien. Se isso vai vingar, também não sei, o que sei é que delegar tal tarefa a outros que não o próprio Morrison é um risco e tanto, visto que o sucesso desse material depende exclusivamente da forma como se lapidará o “novato”. Tome como exemplo o caso de Ed Brubaker e a construção meticulosa do personagem de James Buchanan Barnes (o Bucky) até ocupar o posto de Steve Rogers como Capitão América.

* Por cinco minutos, ele assumiu o manto no distante arco noventista, Filho Pródigo.

Outra medida reprovável foi a de, a princípio, paralisar a publicação de Detective Comics e Batman por três meses, enxugar títulos regulares quirópteros cancelando Asa Noturna, Robin, Mulher-Gato e Aves de Rapina e imediatamente depois provocar uma verdadeira avalanche de lançamentos duvidosos com overdoses de mais do mesmo (no que toca as minisséries e as histórias curtas). Confira:

TRÊS MINISSÉRIES >>>

Battle for the Cowl #01-03 (por Tony Daniel entre Março-Maio)
Azrael: Death's Dark Knight #01-03 (por Fabian Nicieza & Frazer Irving entre Março-Maio)
Oracle: The Cure #01-03 (por Kevin Vanhook & Julian Lopez entre Março-Maio)

SETE ONE-SHOTS >>>

Battle for the Cowl: Commissioner Gordon (por Royal McGraw & Tom Mandrake em Março)
Gotham Gazette: Batman Dead? (por Fabian Nicieza & Vários em Março)
Battle for the Cowl: Arkham Asylum (por David Hine & Jeremy Haun em Abril)
Battle for the Cowl: The Underground (por Chris Yost & Pablo Raimondi em Abril)
Battle for the Cowl: Man-Bat (por Joe Harris & Jim Calafiore em Abril)
Battle for the Cowl: The Network (por Fabian Nicieza & Don Kramer em Maio)
Gotham Gazette: Batman Alive? (por Fabian Nicieza & Vários em Maio)

PÓS-BATTLE FOR THE COWL >>>

Detective Comics #854 (por Greg Rucka & J. H. Williams III a partir de junho)
Batman #687 (por Judd Winick & Ed Benes a partir de junho)
Batman and Robin (por Grant Morrison & Frank Quitely a partir de junho)
Red Robin (por Chris Yost & Ramon Bachs a partir de junho)
Batman: The Streets of Gotham (por Paul Dini, Mark Andreyko & Dustin Nguyen a partir de junho)
Gotham City Sirens (por Paul Dini & Guillem March a partir de junho)
Batgirl*

* A equipe criativa desta última nem sequer foi revelada e esse título já me causa arrepios, será mesmo que tomaram coragem e vão mesmo subverter o que houve de pior na Piada Mortal de Alan Moore & Brian Bolland?

Quanto ao que está ocorrendo ‘Whatever Happened to the Caped Crusader?(em Batman #686 e Detective Comics #853), faço minhas as palavras do Érico, trata-se da “convergência dos fãs de Morfeu com os fãs de Batman”, um misto quente entre Fim dos Mundos e Despertar só que no lugar da taberna e o Sonhar, temos o Beco do Crime e Gotham como palco de um velório* pouco convencional. Pena que o segundo capítulo está atrasado e só deve chegar, com muita reza, nas próximas duas semanas.

* Nada corrobora para que o corpo neste caixão seja aquele que o Clark segurava em seus braços, nem mesmo o plano existencial, visto que a intriga parece se desenrolar à parte dos acontecimentos recentes.

Por fim, como se pode perceber, o segundo semestre será marcado por uma nova inversão do status quo, se será benéfica ou não, só o tempo dirá, certo é que ao menos temos pela frente três grandes promessas: (1) o aguardado projeto de Rucka & Williams III com Kate Kane (Batwoman) em Detective Comics; (2) em Streets of Gotham, Dini incidirá sobre o Batman, do ponto de vista dos civis, heróis e vilões locais, premissa esta que, não custa lembrar, curto demais; e (3) o quarto (Batman and Robin) e quinto volumes (?) do que Morrison chama de seu "grande épico" para o morcego e deverá pontuar seu regresso da idade da pedra.

Harry Houdini deve estar se revirando no túmulo.

Escrito por LUWIG